quinta-feira, 21 de junho de 2012

Hino à liberdade


Já disse adeus à saudade
Hospedada no meu peito,
Vou viver em liberdade,
Não sei viver doutro jeito.

Quero ser ave, ser vento,
Com morada indefinida,
Ir além do pensamento,
Ser mais ligeira que a vida.

Ser eu assim repartida
Entre vontades sem fim.
Viver a vida incontida,
Ser livre, sair de mim.





Texto: Maria da Fonte
Imagem: rosariumaria.blogspot.com


segunda-feira, 18 de junho de 2012

SOMOS UM POVO PACÍFICO





Hoje tive um daqueles dias enormes, em que as horas se arrastavam tão lentamente que eu até cheguei a pôr a hipótese de as expulsar do meu dia. Ai está pasmado! Então veja o que tenho para lhe contar.
Acordei pelas sete da manhã e vesti-me apressadamente para levar os meus filhos à escola, para, de seguida, me dirigir ao hospital, já que me aguardava uma consulta marcada há sete semanas e meia. Sim, há sete semanas e meia. É que na altura andava muito mal da coluna e queria que o Sr. Doutor me resolvesse o problema, ou pelo menos que mo anestesiasse por uns dias. Mas assim não teve que ser e eu fui adormecendo a dor à sombra do abençoado brufen . Cheguei a temer que o corpo se habituasse à droga, mas não, até se portou muito bem.
Até aqui tudo correu lindamente, eram nove horas e já eu aguardava sentada à porta do consultório do Sr. Doutor que, presumidamente, me iria atender. Já com algum tempo para pensar na vida, começa a vir-me à memória uma série de episódios burlescos que me haviam acontecido naquele hospital. Dei comigo a rir-me desenfreadamente de alguns deles, que, na altura, me tiraram do sério e me levaram a soltar a língua. Não é que isso me aconteça com frequência, mas há dias em que perco as estribeiras e começo a exigir que se faça alguma justiça neste país de corruptos. E não leve a mal a minha franqueza, até lhe peço desculpa por esta ousadia. A esta hora o amigo já está furioso comigo e a perder também a sua paciência por me ver constantemente a mudar de assunto. Pois, eu sei disso, mas estou com algum receio, é que eu não vou falar de nenhum funcionário de limpeza, que esses até estavam lá todos e não me aborreceram nada, vou falar do Sr. Doutor que, como já lhe disse, em breve iria ouvir as minhas lamentações. Sim, esse mesmo. Já passavam quarenta e cinco minutos quando ele apareceu todo arreliado e, olhando de soslaio para a sala, foi rosnando baixinho «cambada de malandros, estão tão doentes como eu». Bem, mas isso não interessa, o mais importante é que eu estava prestes a ser atendida e já só precisava de uma justificação para os noventa minutos que iria faltar ao trabalho. Afinal, nem precisei de tanto, o Sr. Doutor foi mais eficiente do que o que eu estava à espera. Ainda não tinha aberto completamente a porta e já ele prescrevia a receita. Diga lá que não foi eficaz. Permitiu-me que chegasse mais cedo trinta minutos ao emprego. Deu um excelente avanço à coisa. Pena é que não tenha ouvido o que tinha para lhe dizer, mas também não faz mal, marco outra consulta e resolvo o problema mais tarde. Hoje também não me dava muito jeito, tenho tanto e tanto trabalho no serviço. Olha, logo se verá o que se pode fazer.
Entro na escola, dirijo-me à secretaria, entrego a justificação e corro aceleradamente para uma sala de aulas. Sabia que nesse dia tinha três substituições a fazer. Tinha sido, antecipadamente, avisada pelo Sr. Diretor. Alguns amigos dele estavam a faltar, parece que tinham ido para um torneio de golfe, e não estariam na escola nos próximos dias, pelo que cabia-me a mim a tarefa de lhes justificar um quinto do ordenado. Acha que é muito? Olhe que não. Quando lhe disser que ainda tinha sete atas para fazer e três vigilâncias, vai-se arrepender de todo o mal que está a pensar a meu respeito. Sim, sim…isso tudo. Os amigos do Sr. Diretor não tinham jeito para a escrita e também lhes faltava pachorra para estarem duas horas especados dentro de uma sala de aula. E eu tinha medo de perder o emprego. Não me chame covarde, amigo, afinal ainda não sabe nada de mim. E se soubesse que eu já fui ameaçada pelo Sr. Diretor, por ousar ripostar a uma ordem sua. Naquele dia andava sem paciência para aturar os caprichos dos amigos do Sr. Diretor. Até desabafei com uma amiga, mas ela confessou-me que em todo lado era assim. No tribunal, ela dava todos os dias mais sessenta minutos para um amigo do Sr. Juiz sair mais cedo, não aguentava tantas horas fechado. Até o marido tinha chegado furioso um dia destes. Era júri de um concurso que tinha havido na câmara, mas o Sr. Vereador avisou logo que não estivessem com coisas, porque o primeiro lugar já tinha sido prometido ao amigo. Ora, como podem ver, esta conversa não veio ajudar em nada o meu fim de dia. Resolvi descansar a raiva num jardim vizinho.
Sentei-me num banco, próxima de uns reformados, e comecei, em jeito de analepse, a recordar o meu dia. Não demorou, porém, cinco minutos e eu já estava de ouvido colado à conversa dos dois homens que ali se encontravam. Dizia um para o outro: «Os nossos políticos são uns corruptos». O outro, com a maior calma do mundo, respondia: «Não te aborreças, homem. Nós até somos pacíficos, como diz o Sr. Presidente».
Fiquei toda a noite a pensar nesta conversa. Pois, eu bem sei porque é que nós somos pacíficos...

Texto: Maria da Fonte
Imagem: naoamiseria.blogspot.com

sábado, 16 de junho de 2012

Ofendida















Tirei do bolso uma, e outra, e outra, e outra…
num delírio de profeta atormentado
um imbróglio de palavras ofendidas
e lancei-as aleatoriamente
contra o muro intransponível das sombras
amargas que cercavam a minha ausência.
E as palavras, feridas, caíam como
pássaros esfacelados num chão estéril,
de um céu imundo.

A noite ascendia ao limite das minhas forças
e o horizonte ficava para lá dos muros.
Os homens, de armas em punho,
persistiam em aniquilar a vida,
como se ela, inocente, ocultasse
propositadamente os filões
que avidamente farejavam.

A minha voz desfalece no limiar do desespero
e as palavras morrem em páginas
soltas.
O meu corpo, arrastado
pela ganância humana,
cai no sorvedouro de um tempo
que teima em devorar-me.

Maria da Fonte
hypescience.com


sábado, 9 de junho de 2012

Quero ser político





Há dias em que os meus filhos me fazem sentir uma mãe tão desatenta, tão pequena… enfim, tão miserável. Não sei se convosco se passa o mesmo, mas, talvez para me sentir menos infeliz, quero acreditar que sim. Hoje mesmo, o meu filho mais novo colocou-me uma questão que me deixou cinco minutos boquiaberta. Depois, envergonhada, fechei a boca e fui esconder-me por baixo de uma mesa deplorável que tenho no centro da cozinha e que já não tem utilidade nenhuma, afinal para comer um papo-seco nem faz falta sentar, não vá esse descanso abrir-nos o apetite…
Mal dá o primeiro passo para pôr o pé em casa, reparo no seu mau humor, mas nem tenho tempo para lhe perguntar nada, já que ele, apressadamente e num tom carregado de desilusão e de raiva, se vira para mim e diz:
- Mãe, hoje estive com a psicóloga da minha escola para ela me ajudar a escolher a área que devo seguir. E sabes uma coisa? Não volto lá mais!
- Não voltas lá mais?!
- Não. Estou cansado de ouvir sempre a mesma coisa. Vem sempre com o blá-blá-blá dela e eu já não estou para a aturar. Já lhe disse que quero ser político, mas ela não me diz qual é a área que devo seguir e eu fico meio perdido no meio disto tudo.
Ora, digamos que esta convicção do meu filho me deixou excessivamente assombrada. Cheguei mesmo a duvidar da sua sanidade mental, a pensar que ele não entendia nada do que estava a dizer, e, pelo sim ou pelo não, perguntei-lhe:
- Por que razão queres tu ser essa coisa, se há tantas profissões bem mais interessantes do que isso?
- Só podes estar a gozar-me, mãe. Profissões melhores do que esta? Tu achas que esquartejar um homem, ouvir desaforos de alunos e pais malformados, sujeitar-me às queimaduras solares em cima de um obra ou até mesmo deixar em pó o meu cérebro, sentado num tribunal, a defender causas perdidas, é melhor do que ser político? Não, mãe! Estás muito enganada.
-Ó filho, tu não vês como eles são…- preparava-me para lhe dar mais uma das minhas lições de moral e, claro está, desancar naquela espécie de sanguessugas, quando ele, já um pouco irritado, me responde – bonitos como pavões, ostentando nas penas todas as pérolas preciosas que conheço; de pele luzente como estrelas, carregando com eles todas as praias e todos os sóis do mundo; nutridos como os leitões da Bairrada, de tantas sestas que tiram no parlamento…-Digo-lhes que, perante tantos argumentos, quase ficava convencida. Foi então que me surgiu a ideia de recorrer à literatura para me ajudar a sair daquele embaraço.
- Lembras-te de quando me pediste para te explicar «O Sermão de Santo António aos Peixes», aquele texto que saía num teste que ias fazer?
-Sim, sim, estou perfeitamente lembrado.
- Então, também queres encher a barriga à custa da pequenez e da fragilidade dos outros?
- És tão inocente, mãe. Essa conversa já é antiga e repete-se no tempo. Já agora, também te lembras de me explicar «Os Maias» e de me dizeres que Eça estava muito atento à corrupção política e social do seu tempo, ou até mesmo de me explicares alguns poemas mais contemporâneos e de me pedires para não confundir o autor com o sujeito poético? Tu lá sabias porquê…mas às tantas é porque já vias aqui um peixe grande disfarçado de pequeno.
- E tu queres ser um desses peixes astronómicos, queres que o teu corpo cresça à custa de inofensivos cardumes?
- São esses, mãe, os grandes, que nunca são capturados, ou melhor, às vezes até se chegam a eles, mas é só para lhes depositar uma medalha ao pescoço. Tu já viste, mãe, algum peixe pequeno a ser condecorado?
- Não te percas, filho. Concentra a tua atenção na dignidade das coisas pequenas, que só essas poderão fazer de ti grande.
- Quero ser político, mãe. A não ser que eles sejam depositados num aquário e aí, sim, eu posso escolher qualquer profissão do mundo, porque sei que o nosso mar estará em segurança.

Maria da Fonte