quinta-feira, 26 de julho de 2012

Um resto de vida











Fito o teu corpo
ao dobrar cada esquina,
o teu olhar petrificado pelo terror,
os teus gestos ensaiados
…sem pudor,
o teu travo amargo a cocaína.
Vagueias nas ruas
da cidade,
à sombra da sombra rastejante.
Pássaro ferido,
voo vacilante,
céu caído
num chão de ansiedade.

Foste formiga,
cigarra, horizonte,
tesouro da casa de teus pais,
terra prometida,
mar de corais,
água cristalina da mais pura fonte.
Secaste no rio,
no vale, no monte.
Veias mirradas num tronco caído,
passado distante,
presente partido,
futuro suspenso,
sem asas,sem ponte.

Hoje és paralelo
da betesga esquecida,
Subúrbio de um mundo cruel,
pedante,
tela descorada,
música dissonante,
calçada dos homens,
um resto de vida.

Texto: Maria da Fonte
Imagem: filosofiaetecnologia.blogspot.com


9 comentários:

  1. Às vezes perdemo-nos num qualquer beco, quase sem nos darmos conta. Quase nunca há regresso.
    Poema intenso, pleno de ritmo.

    Beijo :)

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  2. A poesia como um rio de emoções que doem, num mundo cruel. Um dia, chegada à foz, quem sabe encontre o sol, a liberdade!
    Bela, intensa, como sempre!
    Abraço M.

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  3. Olá Maria, tantos restos de vida a vaguear por caminhos perdidos e à procura do nada. Perde-se a juventude, perde-se a alma e perde-se a vida, sem sequer haver uma causa nobre. Lindo e muito nostálgico este seu poema, que adorei. Beijos com carinho

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  4. A droga deixa o corpo e a alma carcomidos pela dor, a droga é cruel, parabéns! Um abraço, Yayá.

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  5. Como eu sei bem o que a droga provoca...Tenho-a na família e sei
    o sofrimento que provoca a quem a consome e a toda a família.
    Bj.
    Irene Alves

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  6. É um poema triste, mas muito comovente...
    Beijos.

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  7. Conheço tantos "restos de vidas" e,
    muitas vezes nada se pode fazer...
    Na minha terra, perto de mim, vejo cenas
    tão dolorosas: crianças, cheirando cola,usando drogas
    perambulando pela cidade. O Poder Público quase nada faz.

    Seu poema é tão real, Maria da Fonte, que "visualizei" o que
    sempre vejo, sentindo-me impotente para ajudar de alguma forma,
    para resgatar alguma vida...ou algum sopro de vida...

    Um abraço

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  8. Minha querida, cada vez que a leio mais a admiro. A sua poesia são inteiros « restos de vidas», magnificamente edificados num poema.
    Excelente.
    Beijinho amigo e uma flor.

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  9. Quando a droga vence, os consumidores tornam-se farrapos humanos.
    Excelente poema, querida amiga. Na forma e no conteúdo, foste brilhante.
    Um beijo.

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