sábado, 16 de junho de 2012

Ofendida















Tirei do bolso uma, e outra, e outra, e outra…
num delírio de profeta atormentado
um imbróglio de palavras ofendidas
e lancei-as aleatoriamente
contra o muro intransponível das sombras
amargas que cercavam a minha ausência.
E as palavras, feridas, caíam como
pássaros esfacelados num chão estéril,
de um céu imundo.

A noite ascendia ao limite das minhas forças
e o horizonte ficava para lá dos muros.
Os homens, de armas em punho,
persistiam em aniquilar a vida,
como se ela, inocente, ocultasse
propositadamente os filões
que avidamente farejavam.

A minha voz desfalece no limiar do desespero
e as palavras morrem em páginas
soltas.
O meu corpo, arrastado
pela ganância humana,
cai no sorvedouro de um tempo
que teima em devorar-me.

Maria da Fonte
hypescience.com


4 comentários:

  1. Lindo Maria!
    Por isso mesmo, muitos de nós dizemos que não somos deste tempo!
    As vozes não se ouvem...
    A ganância, a avareza, dominam o mundo!


    Bom fim de semana
    Beijos
    Sónia

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  2. Olá Maria da Fonte...achei-te!
    Excelente a força do teu poema que me toca a alma, a parte mais feminina dela, a que reclama o fim deste martírio materializado pela ganancia e a avareza que fazem da vida um absurdo...belo poema..muito belo...
    beijos amiga
    joão raimundo

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  3. Olá Maria da Fonte,
    Um poema genial que me arrepiou pelo tema que foca.
    Um tema infelizmente actual e que nos faz doer a alma.
    Beijinhos,
    Ailime

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  4. Nas palavras que constantemente nos cercam, a anastesia
    e a fome de dias de paz.
    Uma poesia tão atual!
    Beijinhos, Lita

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